acompanhando
a madrugada parada em frente ao prédio, passa quase ninguém, qualquer um chama
a atenção, pra qualquer um invento nome e construo história, é o jeito de fazer
o tempo passar. meio que enxergando o mundo em clichês prototípicos, minhas
histórias são quase sempre as mesmas, que os tipos parecem quase sempre os
mesmos. o casal feliz saído de um filme que nem deve ser tão feliz assim, as
duas senhoras que saíram do trabalho e seguem exaustas pra parada de ônibus, o
bando de jovens bêbados em busca de um algo mais que é de menos, a mocinha
apressada com medo de tudo e os doidões. os doidões são muitos, pra cada não
doidão, passa um doidão. esses doidões, que provavelmente são os que têm mais
histórias, pra esses não consigo construir história nenhuma, acho que meu devir
não está à altura. ►►►
o
guardinha da rua vê tudo, a rua é dele, conhece todos os moradores, levanta da
cadeira ao menor movimento. sorri benévolo aos motoristas (é também
flanelinha), faz piadinhas educadas a quem sai dos prédios. e desde a esquina
oposta detecta a presença de um doidão. se posiciona alerta no meio da rua,
como um cão de audição sensível a tons que ignoramos, e faz cara de mau. é
inofensivo, porém. já tem idade, caminha de um lado pra outro com um cigarro no
canto da boca, não aguentaria uma corrida de esquina a esquina, é como o
policial civil que liga pra brigada em caso de confusão. não interferiria num
arrombamento de carro e provavelmente não veria nada acontecendo se alguma casa
fosse invadida, mas confere a si mesmo uma autoridade que ninguém sabe de onde
vem. ►►► só
que ele pára no meio da rua com sua melhor cara de durão quando vê que o doidão
dobrou a esquina. o doidão ignora, talvez porque o mundo seja dos doidões e
todo o resto simplesmente não importe; ou talvez porque a cada dobrada de
esquina um fiel guardinha le dirija o mais ameaçador olhar e o estranhamento
desista com a repetição. o doidão vem vindo com uma garrafa pet na mão, tomando
sua canha de canudinho. mochila nas costas, um pedaço de espuma enfiado ali de
qualquer jeito. caminha a passos firmes, mas é atraído por qualquer coisa que
poderia passar despercebida, um troço no chão, uma estrela-cadente, uma
lagartixa no muro (quem sabe ao que ele dedica seus momentos?), até parece que
não tem destino, até chega a parecer embriagado. pára ante o contêiner, olha
descrente pra dentro, remexe um pouco, quem sabe alguma coisa? mas ouve um
barulho e se esquiva, sem nunca tirar da boca o canudinho enfiado em sua
garrafa pet que eu espero de verdade que seja de canha porque é o que eu
gostaria de ter numa garrafa pet pra beber de canudinho no meio da noite.
curvado, corcunda, protegido pelo contêiner, ingere ainda o líquido por
movimentos contínuos de sucção que percebo pelo beicinho que faz de vez em vez,
concentrado nos acontecimentos lá pro meio da quadra. ►►► o
guardinha foi à esquina conseguir um taxi, que atendeu ao chamado e procurava o
passageiro, achou que fosse eu, não era, apontei pro prédio certo (foi nesse entrementes
que o doidão entrou na rua).
o barulho é do taxi que estaciona, é do porteiro que abre solícito o portão do
prédio, é do boa noite sendo desejado à dama que sai de cabeça erguida
agradecendo sem olhar pro lado em direção ao taxi onde o guardinha a aguarda
com a porta aberta pra depois batê-la com a mesma mão que acenará em conjunto
com um sorriso tosco de até mais. ►►►
o
doidão, curvado, corcunda, meio longe mas nem tanto da cena, que bebia sua
quem-sabe-canha, retira da garrafa o canudinho e o posiciona na horizontal defronte
do olho pra ver melhor o que se passa lá na frente. franze um pouco a testa,
adianta um pouco o pescoço e leva a mão esquerda também à luneta pra ajudar no
direcionamento preciso, foco é tudo. examinada a cena, abaixa um pouco o
instrumento sem abaixar o olhar ainda fixo e enrugado. leva o canudo à boca, de
novo em posição horizontal, toma um impulso e um fôlego e dispara com sua agora
zarabatana quem-sabe-o-que contra a moça. se agacha muito rápido, esconde o
rosto, espera o taxi passar. levanta aferrado, em movimentos militares,
contempla o horizonte com dignidade, enfia novamente o canudo na garrafa e a
boca no canudo. ►►► desce
um cliente, recebo a comanda, boa noite, doutor, volte sempre. o guardinha
agora corre ao carro do doutor pra ganhar suas moedas. o doidão segue em frente
sem pressa, passa cauteloso pela cena do crime, lança ao porteiro um olhar
vitorioso e segue seu caminho em busca de (quem sabe qual será) sua próxima
missão.
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