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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

►►►►►►►sobre►canudos►lunetas►e►zarabatanas►►►



acompanhando a madrugada parada em frente ao prédio, passa quase ninguém, qualquer um chama a atenção, pra qualquer um invento nome e construo história, é o jeito de fazer o tempo passar. meio que enxergando o mundo em clichês prototípicos, minhas histórias são quase sempre as mesmas, que os tipos parecem quase sempre os mesmos. o casal feliz saído de um filme que nem deve ser tão feliz assim, as duas senhoras que saíram do trabalho e seguem exaustas pra parada de ônibus, o bando de jovens bêbados em busca de um algo mais que é de menos, a mocinha apressada com medo de tudo e os doidões. os doidões são muitos, pra cada não doidão, passa um doidão. esses doidões, que provavelmente são os que têm mais histórias, pra esses não consigo construir história nenhuma, acho que meu devir não está à altura. ►►► o guardinha da rua vê tudo, a rua é dele, conhece todos os moradores, levanta da cadeira ao menor movimento. sorri benévolo aos motoristas (é também flanelinha), faz piadinhas educadas a quem sai dos prédios. e desde a esquina oposta detecta a presença de um doidão. se posiciona alerta no meio da rua, como um cão de audição sensível a tons que ignoramos, e faz cara de mau. é inofensivo, porém. já tem idade, caminha de um lado pra outro com um cigarro no canto da boca, não aguentaria uma corrida de esquina a esquina, é como o policial civil que liga pra brigada em caso de confusão. não interferiria num arrombamento de carro e provavelmente não veria nada acontecendo se alguma casa fosse invadida, mas confere a si mesmo uma autoridade que ninguém sabe de onde vem. ►►► só que ele pára no meio da rua com sua melhor cara de durão quando vê que o doidão dobrou a esquina. o doidão ignora, talvez porque o mundo seja dos doidões e todo o resto simplesmente não importe; ou talvez porque a cada dobrada de esquina um fiel guardinha le dirija o mais ameaçador olhar e o estranhamento desista com a repetição. o doidão vem vindo com uma garrafa pet na mão, tomando sua canha de canudinho. mochila nas costas, um pedaço de espuma enfiado ali de qualquer jeito. caminha a passos firmes, mas é atraído por qualquer coisa que poderia passar despercebida, um troço no chão, uma estrela-cadente, uma lagartixa no muro (quem sabe ao que ele dedica seus momentos?), até parece que não tem destino, até chega a parecer embriagado. pára ante o contêiner, olha descrente pra dentro, remexe um pouco, quem sabe alguma coisa? mas ouve um barulho e se esquiva, sem nunca tirar da boca o canudinho enfiado em sua garrafa pet que eu espero de verdade que seja de canha porque é o que eu gostaria de ter numa garrafa pet pra beber de canudinho no meio da noite. curvado, corcunda, protegido pelo contêiner, ingere ainda o líquido por movimentos contínuos de sucção que percebo pelo beicinho que faz de vez em vez, concentrado nos acontecimentos lá pro meio da quadra. ►►► o guardinha foi à esquina conseguir um taxi, que atendeu ao chamado e procurava o passageiro, achou que fosse eu, não era, apontei pro prédio certo (foi nesse entrementes que o doidão entrou na rua). o barulho é do taxi que estaciona, é do porteiro que abre solícito o portão do prédio, é do boa noite sendo desejado à dama que sai de cabeça erguida agradecendo sem olhar pro lado em direção ao taxi onde o guardinha a aguarda com a porta aberta pra depois batê-la com a mesma mão que acenará em conjunto com um sorriso tosco de até mais. ►►► o doidão, curvado, corcunda, meio longe mas nem tanto da cena, que bebia sua quem-sabe-canha, retira da garrafa o canudinho e o posiciona na horizontal defronte do olho pra ver melhor o que se passa lá na frente. franze um pouco a testa, adianta um pouco o pescoço e leva a mão esquerda também à luneta pra ajudar no direcionamento preciso, foco é tudo. examinada a cena, abaixa um pouco o instrumento sem abaixar o olhar ainda fixo e enrugado. leva o canudo à boca, de novo em posição horizontal, toma um impulso e um fôlego e dispara com sua agora zarabatana quem-sabe-o-que contra a moça. se agacha muito rápido, esconde o rosto, espera o taxi passar. levanta aferrado, em movimentos militares, contempla o horizonte com dignidade, enfia novamente o canudo na garrafa e a boca no canudo. ►►► desce um cliente, recebo a comanda, boa noite, doutor, volte sempre. o guardinha agora corre ao carro do doutor pra ganhar suas moedas. o doidão segue em frente sem pressa, passa cauteloso pela cena do crime, lança ao porteiro um olhar vitorioso e segue seu caminho em busca de (quem sabe qual será) sua próxima missão.

►►►►►fugaziburning too◄◄◄◄◄◄◄◄◄◄

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

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Então retornei, e me pediam para contar tudo que havia vivido e experimentado, e em formato de fábula porque queriam ao final o sumo do aprendizado. E talvez eu tenha tentado contar, já não lembro, mas a questão é que nunca consegui. Nesse ponto este bosquejo se ramifica.

Compartir é muito bonito; não há sentido em aprender se não for pra compartilhar, pra trocar. De alguma forma eu senti que, ao estar sentada em casa apreendendo através do meu texto, essa gente deixava de estar na rua aprendendo por si, e eu não queria compactuar com isso. Essa novidade de saber muito facilmente ao nosso alcance nos faz deixar de valorizá-lo, e, pior, nos tira a gana de buscar aquilo que é mais complicado de aprender. Não podemos nos proteger do mundo! Temos que experimentá-lo!

Tenho eu o direito de querer eternizar qualquer coisa? Aprendi que a palavra escrita limita, que escrever é renunciar, que terminar de escrever uma história é ter medo de continuar vivendo-a. São tantas as enciclopédias ultrapassadas por aí, perderam valor e sentido, e viraram mentira: se quiseram absolutas. Palavra escrita é prepotência, somos todos rascunhos.

Palavras se compõem e se agrupam. São montagens, colagens e construções, ganham, ao longo do percurso, conotações, ganham prefixos e sufixos. Viram raízes, princípios para outras palavras, em outras línguas até. E nesse jogo de adição de afixos as palavras ficam cada vez maiores e mais cheias de minudências, num movimento que não precisa ter fim. No final do trajeto seremos uma palavra, que terá sido derivada, a ela (a nós) partes e partículas haverão sido agregadas e terão (teremos) passado a significar e subjetivar coisas diversas. E a palavra não fará (não faremos) sentido sozinha, pois ela internamente não é senão a junção de micropartes microssignificantes, e existe em consistência somente num contexto um pouco maior, da construção das frases, que, sabemos, não precisam também ter fim...

Não têm fim também nenhuma das minhas histórias. Vivi não existe; vivo ainda. Elas me constroem diariamente. Revivo, recrio, revisito, transformo e absorvo um tico mais todas elas, sempre. Se começasse a contar uma história, não alcançaria seu fim jamais – a reescrita é eterna, me disseram uma vez. São muitas as apresentações, muitos os conflitos e clímaces. Não ousaria dar-lhes um fim. Por isso eu digo que não doar-se ao papel é doar-se à vida, a viver, a experimentar, a manter-se ressonante sempre.

Então esta, em especial, é uma lição sobre o medo. Sobre o medo que temos todos de viver, e sobre o medo que tenho eu de dar fim às coisas. Ou no fundo talvez sobre o medo que eu tenho de escrever. Porque chegou um momento em que soube, uma certeza relativamente rara pra mim, soube que aquele turbilhão não retornaria. Porque eu acreditei, acreditei longo tempo que retornaria, e esperei por mais ainda que retornasse. Só depois eu compreendi que foi um rasgo, um lapso, um arroubo, uma intervenção, e foi embora. Foi embora assim, sem despedida formal, unilateralmente decidiu por nós dois que habitaria os instintos de outra pessoa.

Ah como eu tentei acreditar no Neruda! Voy a cumplir con todos porque debo a todos mi alegria! Cantar a alegria é coisa dos que são poetas de verdade e que buscam as coisas nos seus corações gordinhos de poeta. Ao resto de nós, desvalidos mais ou menos persistentes, nos resta contar o resto.


sexta-feira, 16 de julho de 2010

LINHA CRUZADA


Uma singela viajera vê pela janela do ônibus que a leva ao próximo destino a paisagem que passa infelizmente rápido demais de modo que não guarda na memória detalhes descritíveis, só uma casinha de pintura descascada que figura no meio do costumeiro verde da beira de estrada, velha velha e chama atenção porque não é verde enquanto procura o motivo ou resposta pro permanente estado de solidão conformada que todos que conhece partilham e achou que aquela casa rosa-descascado era a imagem daquilo sobre o que vinha refletindo.


- Cê leva as palavras muito a sério.

- E tu os legumes!

- Mas é o meu trabalho!

- Mas e as palavras são o meu.

- Isso é o que cê fica dizendo por aí.

- Tu sabe que eu tô passando por um período difícil.

- E enquanto isso os meus legumes que te sustentam.


Um senhor já pra lá da meia idade recém expulso inclusive do sofá da sala toma pela primeira vez em anos o posto do fiel motorista e dirige para além dos limites da cidade, onde todos conhecem seu nome e sua pose mas ninguém pode saber do oficialmente recém findo casamento de anos e anos de atrasos pro jantar que depois comia em silêncio na cabeceira da mesa de doze lugares ouvindo o cuco do relógio grande antigo de cuco, boa madeira suíça.


- Bom dia, gostaria de alugar sua casa pelo período de dez dias.

Quedou estarrecida a dona da casa, sendo tamanha a mal diagramação do sujeito.

- Pago-lhe dez mil em dinheiro e adiantado se a casa oferecer calefación.


- Eu queria ter contado nos dedos as vezes que te falei da merda da calefación.

- Te acalma, inventei um novo cozido!

- Ah, e eu terminei uma história!

- Sério??! Qual??

- A nossa.


sexta-feira, 7 de maio de 2010

NÃO

À direita do colchão que chama de cama quando regressa, um ventilador e um despertador. À esquerda, uma mala. Mais do que um objeto, companheira inseparável, porto seguro muito semelhante ao que outros chamariam de lar, carrega o necessário para a (sobre)vivência longe da cidade dos cenários das histórias de barbárie juvenil. A iconoclastia elevada ao máximo pela igreja gera um novo gênero de iconoclasta: se cresceu vendo um crucifixo sobre o quadro negro da escola ou sobre a cama dos pais, agora, guardando a cabeceira, pendurado da maneira que deu, está um colar de semillas - símbolo, por motivo particular, da liberdade geográfica que o ser humano pode, embora nem sempre busque, conquistar. Observando fotos e recordações de toda sorte afixadas nas paredes, não questiona e inclusive compreende que aquilo tudo fez sentido um dia, mas já não tensiona possuir qualquer coisa, um quarto, um canto, mesmo um colchão; nada além da mala, companheira inseparável, onde carrega o necessário para que torne-se lar qualquer lugar onde esteja. O conchego não é mais decorrente desse tipo de refúgio excessivamente cultuado; aconchega-se na liberdade da incerteza, do passageiro, do temporário, da eterna inquietude e assumida insatisfação, da busca incessante sem almejos de alcançar objetivos maiores, comuns, conclusivos. Não falta ambição, ela é comedida, diria, sensata. Do pó ao pó.

Se não há muito deu-se o momento do reencontro com esse passado insistentemente presente e parte eminente de qualquer futuro próximo ou não, não tarda a hora de partir. Inevitavelmente essa hora chega e a cada temporada o intervalo de tempo diminui, pois a despedida, que nada mais é do que um recomeço, vai tornando-se vital. É crescente a necessidade de movimento e o tempo, cada vez passando mais acelerado, nutre essa necessidade que brota da agonia de encontrar-se repetidamente riscando dias no calendário.

O contato com o que do passado fez parte vai tornando-se vazio, pois agora somente o presente faz sentido. As lembranças esgotaram-se, e já não há forças para que se construam novas histórias. Que resta ali? O produto dos aprendizados já foi assimilado. O conceito de novidade vai além do que é atraente por ser desconhecido; chega ao que é valoroso por causar reflexões até então inimagináveis, por produzir emoções nunca antes vivenciadas. A descoberta de outras existências equivalentes na disparidade.

O prazer que busca é animal, instintual e inato. Descarta necessidades mentirosas e valores dissímulos adquiridos seja por ignorância ou negação. Procura o absoluto e soberano, quase despótico, prazer humano pela simples existência. Vem a rodoviária que, junto da mala, companheira inseparável e equivalente maior do seu conceito de lar, é fator comum a qualquer sítio. Vem o conforto, primitiva sensação, por estar frente ao que entende ser a mais fiel representação material do transitório.