Então retornei, e me pediam para contar tudo que havia vivido e experimentado, e em formato de fábula porque queriam ao final o sumo do aprendizado. E talvez eu tenha tentado contar, já não lembro, mas a questão é que nunca consegui. Nesse ponto este bosquejo se ramifica.
Compartir é muito bonito; não há sentido em aprender se não for pra compartilhar, pra trocar. De alguma forma eu senti que, ao estar sentada em casa apreendendo através do meu texto, essa gente deixava de estar na rua aprendendo por si, e eu não queria compactuar com isso. Essa novidade de saber muito facilmente ao nosso alcance nos faz deixar de valorizá-lo, e, pior, nos tira a gana de buscar aquilo que é mais complicado de aprender. Não podemos nos proteger do mundo! Temos que experimentá-lo!
Tenho eu o direito de querer eternizar qualquer coisa? Aprendi que a palavra escrita limita, que escrever é renunciar, que terminar de escrever uma história é ter medo de continuar vivendo-a. São tantas as enciclopédias ultrapassadas por aí, perderam valor e sentido, e viraram mentira: se quiseram absolutas. Palavra escrita é prepotência, somos todos rascunhos.
Palavras se compõem e se agrupam. São montagens, colagens e construções, ganham, ao longo do percurso, conotações, ganham prefixos e sufixos. Viram raízes, princípios para outras palavras, em outras línguas até. E nesse jogo de adição de afixos as palavras ficam cada vez maiores e mais cheias de minudências, num movimento que não precisa ter fim. No final do trajeto seremos uma palavra, que terá sido derivada, a ela (a nós) partes e partículas haverão sido agregadas e terão (teremos) passado a significar e subjetivar coisas diversas. E a palavra não fará (não faremos) sentido sozinha, pois ela internamente não é senão a junção de micropartes microssignificantes, e existe em consistência somente num contexto um pouco maior, da construção das frases, que, sabemos, não precisam também ter fim...
Não têm fim também nenhuma das minhas histórias. Vivi não existe; vivo ainda. Elas me constroem diariamente. Revivo, recrio, revisito, transformo e absorvo um tico mais todas elas, sempre. Se começasse a contar uma história, não alcançaria seu fim jamais – a reescrita é eterna, me disseram uma vez. São muitas as apresentações, muitos os conflitos e clímaces. Não ousaria dar-lhes um fim. Por isso eu digo que não doar-se ao papel é doar-se à vida, a viver, a experimentar, a manter-se ressonante sempre.
Então esta, em especial, é uma lição sobre o medo. Sobre o medo que temos todos de viver, e sobre o medo que tenho eu de dar fim às coisas. Ou no fundo talvez sobre o medo que eu tenho de escrever. Porque chegou um momento em que soube, uma certeza relativamente rara pra mim, soube que aquele turbilhão não retornaria. Porque eu acreditei, acreditei longo tempo que retornaria, e esperei por mais ainda que retornasse. Só depois eu compreendi que foi um rasgo, um lapso, um arroubo, uma intervenção, e foi embora. Foi embora assim, sem despedida formal, unilateralmente decidiu por nós dois que habitaria os instintos de outra pessoa.
Ah como eu tentei acreditar no Neruda! Voy a cumplir con todos porque debo a todos mi alegria! Cantar a alegria é coisa dos que são poetas de verdade e que buscam as coisas nos seus corações gordinhos de poeta. Ao resto de nós, desvalidos mais ou menos persistentes, nos resta contar o resto.
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