Páginas

sexta-feira, 16 de julho de 2010

LINHA CRUZADA


Uma singela viajera vê pela janela do ônibus que a leva ao próximo destino a paisagem que passa infelizmente rápido demais de modo que não guarda na memória detalhes descritíveis, só uma casinha de pintura descascada que figura no meio do costumeiro verde da beira de estrada, velha velha e chama atenção porque não é verde enquanto procura o motivo ou resposta pro permanente estado de solidão conformada que todos que conhece partilham e achou que aquela casa rosa-descascado era a imagem daquilo sobre o que vinha refletindo.


- Cê leva as palavras muito a sério.

- E tu os legumes!

- Mas é o meu trabalho!

- Mas e as palavras são o meu.

- Isso é o que cê fica dizendo por aí.

- Tu sabe que eu tô passando por um período difícil.

- E enquanto isso os meus legumes que te sustentam.


Um senhor já pra lá da meia idade recém expulso inclusive do sofá da sala toma pela primeira vez em anos o posto do fiel motorista e dirige para além dos limites da cidade, onde todos conhecem seu nome e sua pose mas ninguém pode saber do oficialmente recém findo casamento de anos e anos de atrasos pro jantar que depois comia em silêncio na cabeceira da mesa de doze lugares ouvindo o cuco do relógio grande antigo de cuco, boa madeira suíça.


- Bom dia, gostaria de alugar sua casa pelo período de dez dias.

Quedou estarrecida a dona da casa, sendo tamanha a mal diagramação do sujeito.

- Pago-lhe dez mil em dinheiro e adiantado se a casa oferecer calefación.


- Eu queria ter contado nos dedos as vezes que te falei da merda da calefación.

- Te acalma, inventei um novo cozido!

- Ah, e eu terminei uma história!

- Sério??! Qual??

- A nossa.


sexta-feira, 7 de maio de 2010

NÃO

À direita do colchão que chama de cama quando regressa, um ventilador e um despertador. À esquerda, uma mala. Mais do que um objeto, companheira inseparável, porto seguro muito semelhante ao que outros chamariam de lar, carrega o necessário para a (sobre)vivência longe da cidade dos cenários das histórias de barbárie juvenil. A iconoclastia elevada ao máximo pela igreja gera um novo gênero de iconoclasta: se cresceu vendo um crucifixo sobre o quadro negro da escola ou sobre a cama dos pais, agora, guardando a cabeceira, pendurado da maneira que deu, está um colar de semillas - símbolo, por motivo particular, da liberdade geográfica que o ser humano pode, embora nem sempre busque, conquistar. Observando fotos e recordações de toda sorte afixadas nas paredes, não questiona e inclusive compreende que aquilo tudo fez sentido um dia, mas já não tensiona possuir qualquer coisa, um quarto, um canto, mesmo um colchão; nada além da mala, companheira inseparável, onde carrega o necessário para que torne-se lar qualquer lugar onde esteja. O conchego não é mais decorrente desse tipo de refúgio excessivamente cultuado; aconchega-se na liberdade da incerteza, do passageiro, do temporário, da eterna inquietude e assumida insatisfação, da busca incessante sem almejos de alcançar objetivos maiores, comuns, conclusivos. Não falta ambição, ela é comedida, diria, sensata. Do pó ao pó.

Se não há muito deu-se o momento do reencontro com esse passado insistentemente presente e parte eminente de qualquer futuro próximo ou não, não tarda a hora de partir. Inevitavelmente essa hora chega e a cada temporada o intervalo de tempo diminui, pois a despedida, que nada mais é do que um recomeço, vai tornando-se vital. É crescente a necessidade de movimento e o tempo, cada vez passando mais acelerado, nutre essa necessidade que brota da agonia de encontrar-se repetidamente riscando dias no calendário.

O contato com o que do passado fez parte vai tornando-se vazio, pois agora somente o presente faz sentido. As lembranças esgotaram-se, e já não há forças para que se construam novas histórias. Que resta ali? O produto dos aprendizados já foi assimilado. O conceito de novidade vai além do que é atraente por ser desconhecido; chega ao que é valoroso por causar reflexões até então inimagináveis, por produzir emoções nunca antes vivenciadas. A descoberta de outras existências equivalentes na disparidade.

O prazer que busca é animal, instintual e inato. Descarta necessidades mentirosas e valores dissímulos adquiridos seja por ignorância ou negação. Procura o absoluto e soberano, quase despótico, prazer humano pela simples existência. Vem a rodoviária que, junto da mala, companheira inseparável e equivalente maior do seu conceito de lar, é fator comum a qualquer sítio. Vem o conforto, primitiva sensação, por estar frente ao que entende ser a mais fiel representação material do transitório.