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sexta-feira, 7 de maio de 2010

NÃO

À direita do colchão que chama de cama quando regressa, um ventilador e um despertador. À esquerda, uma mala. Mais do que um objeto, companheira inseparável, porto seguro muito semelhante ao que outros chamariam de lar, carrega o necessário para a (sobre)vivência longe da cidade dos cenários das histórias de barbárie juvenil. A iconoclastia elevada ao máximo pela igreja gera um novo gênero de iconoclasta: se cresceu vendo um crucifixo sobre o quadro negro da escola ou sobre a cama dos pais, agora, guardando a cabeceira, pendurado da maneira que deu, está um colar de semillas - símbolo, por motivo particular, da liberdade geográfica que o ser humano pode, embora nem sempre busque, conquistar. Observando fotos e recordações de toda sorte afixadas nas paredes, não questiona e inclusive compreende que aquilo tudo fez sentido um dia, mas já não tensiona possuir qualquer coisa, um quarto, um canto, mesmo um colchão; nada além da mala, companheira inseparável, onde carrega o necessário para que torne-se lar qualquer lugar onde esteja. O conchego não é mais decorrente desse tipo de refúgio excessivamente cultuado; aconchega-se na liberdade da incerteza, do passageiro, do temporário, da eterna inquietude e assumida insatisfação, da busca incessante sem almejos de alcançar objetivos maiores, comuns, conclusivos. Não falta ambição, ela é comedida, diria, sensata. Do pó ao pó.

Se não há muito deu-se o momento do reencontro com esse passado insistentemente presente e parte eminente de qualquer futuro próximo ou não, não tarda a hora de partir. Inevitavelmente essa hora chega e a cada temporada o intervalo de tempo diminui, pois a despedida, que nada mais é do que um recomeço, vai tornando-se vital. É crescente a necessidade de movimento e o tempo, cada vez passando mais acelerado, nutre essa necessidade que brota da agonia de encontrar-se repetidamente riscando dias no calendário.

O contato com o que do passado fez parte vai tornando-se vazio, pois agora somente o presente faz sentido. As lembranças esgotaram-se, e já não há forças para que se construam novas histórias. Que resta ali? O produto dos aprendizados já foi assimilado. O conceito de novidade vai além do que é atraente por ser desconhecido; chega ao que é valoroso por causar reflexões até então inimagináveis, por produzir emoções nunca antes vivenciadas. A descoberta de outras existências equivalentes na disparidade.

O prazer que busca é animal, instintual e inato. Descarta necessidades mentirosas e valores dissímulos adquiridos seja por ignorância ou negação. Procura o absoluto e soberano, quase despótico, prazer humano pela simples existência. Vem a rodoviária que, junto da mala, companheira inseparável e equivalente maior do seu conceito de lar, é fator comum a qualquer sítio. Vem o conforto, primitiva sensação, por estar frente ao que entende ser a mais fiel representação material do transitório.